
Votuporanga, terça-feira, 22 de maio de 2012
"Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece." Kafka

Para ver os quadros http://www.youtube.com/watch?v=0JzrqVkyRbM
Gustav Klimt (Baumgarten, Viena, 14 de julho de 1862 — Viena, 6 de fevereiro de 1918) foi um pintor simbolista austríaco.
Em 1876 estudou desenho ornamental na Escola de Artes Decorativas. Associado ao simbolismo, destacou-se dentro do movimento Art nouveau austríaco e foi um dos fundadores do movimento da Secessão de Viena, que recusava a tradição académica nas artes, e do seu jornal, Ver Sacrum. Klimt foi também membro honorário das universidades de Munique e Viena. Os seus maiores trabalhos incluem pinturas, murais, esboços e outros objetos de arte, muitos dos quais estão em exposição na Galeria da Secessão de Viena.

Nesta página os alunos e professores do Curso de Direito da Unifev poderão dividir idéias com a Comunidade Acadêmica da Unifev e com os internautas.
Por qué es importante la Justicia? Porque es la virtud más fundamental para organizar la vida pública, la vida común y vivimos tiempos que exigen una reflexión profunda sobre los principios que deben orientar una sociedad justa, ya que la percepción de legitimidad por parte de todos es el fundamento de nuestra democracia, y una de las piedras angulares lo constituyen las instituciones políticas que vertebran una sociedad democrática.
La calidad democrática de una determinada sociedad tiene mucho que ver con el tipo de instituciones que la configuran, si contribuyen a la integración social, si proporcionan opciones vitales reales, bienes y recursos para que una persona pueda salir de situaciones de desigualdad en la que se encuentra.
Hawls
"Ícaro, no orgulho da afoiteza juvenil, naturalmente foi vitimado pelo excesso. Pois é por excesso que em geral os jovens pecam, como pecam os velhos por carência. E se tivesse que perecer de qualquer maneira, temos de admitir que de dois caminhos igualmente maus e nocivos ele escolheu o melhor – pois os pecados da carência são com justiça reputados piores que os pecados do excesso: estes têm algo de magnânimo, algo do vôo de um pássaro, associado ao céu, enquanto aqueles se arrastam pelo chão como répteis." (Francis Bacon, A sabedoria dos antigos, Ed. Unesp, p. 87)
Certo dia Diógenes foi visto pedindo esmola a uma estátua. Chegaram para ele e perguntaram por que ele estava fazendo aquilo e ele respondeu: "Por dois motivos: primeiro porque ela é cega e não me vê; segundo porque assim eu me acostumo a não receber coisas das pessoas e me acostumo a não depender de ninguém."
"Num dia frio de inverno, alguns porcos-espinhos resolveram se aglomerar bem próximos uns dos outros para proteger-se do frio com o calor recíproco. No entanto, logo sentiram também os espinhos recíprocos, que os obrigaram a se afastar novamente uns dos outros. Quando então a necessidade de se esquentar voltou a aproximá-los, o segundo mal se repetiu, de modo que ficaram oscilando de um lado para o outro entre os dois sofrimentos, até encontrarem uma distância adequada em que pudessem se manter da melhor forma possível.
Sendo assim, a necessidade de viver em sociedade, que nasce do vazio e da monotonia do próprio íntimo, aproxima as pessoas umas das outras. No entanto, suas inúmeras características repulsivas e seus erros insuportáveis voltam a afastá-los. A distância intermediária que, por fim, conseguem encontrar e que possibilita uma coexistência está na cortesia e nas boas maneiras. Àquele que não mantém essa distância, diz-se na Inglaterra: keep your distance! Com ela, a necessidade de calor recíproco é satisfeita de modo incompleto, porém não se sentem os espinhos alheios. Entretanto, quem possui muito calor interno prefere renunciar à sociedade para não provocar nem receber qualquer mal-estar." (Arthur Schopenhauer, A arte de insultar, Ed. Martins Fontes, p. 74-75)
"Por conseguinte, quando a lei estabelece uma lei geral e surge um caso que não é abarcado por essa regra, então é correto (visto que o legislador falhou e errou por excesso de simplicidade), corrigir a omissão, dizendo o que o próprio legislador teria dito se estivesse presente, e que teria incluído na lei se tivesse previsto o caso em pauta. (...) Com efeito, quando a situação é indefinida, a regra também é indefinida, tal qual ocorre com a régua de chumbo usada pelos construtores de Lesbos para ajustar as molduras; a régua adapta-se à forma da pedra e não é rígida, da mesma forma que o decreto se adapta aos fatos." [1]<!--[endif]--> (Aristóteles, Ética a Nicômaco, Ed. Martin Claret, p. 125.)
"a prudência só serve para adiar o inevitável, mais cedo ou mais tarde acaba por se render".
Saramago
Hoje pela manhã morreu José Saramago, primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o prêmio Nobel de literatura. Saramago não era exatamente um dos meus escritores preferidos, mas gosto muito de alguns livros dele. Aliás, sua perspectiva ateísta nunca me incomodou, mesmo crendo eu que há Deus.
Coincidentemente, ontem mesmo eu estava folheando As intermitências da morte, que conta a história inusitada de um país em que, de repente, as pessoas param de morrer. E é muito interessante o modo como ele demonstra que um mundo sem morte seria insustentável em vários aspectos. Depois que a morte "tira férias", muita coisa acontece naquele país: as funerárias quebram, as seguradoras têm que renegociar seus contratos de seguro de vida (criam o instituto da morte compulsória, aos oitenta anos, uma morte ficcional, apenas para estabelecer um momento em que o valor do seguro deveria ser pago necessariamente, podendo a pessoa renovar seu contrato de seguro de vida para mais oitenta anos), os asilos para pessoas idosas vão ficando superlotados, os hospitais também, as religiões entram em crise (não havendo morte, não há céu, não há inferno e, por via de conseqüência, não há "ressurreição da carne"), além do que pessoas que estão gravemente enfermas e não suportam mais a situação em que estão, não podendo morrer, pedem para serem levadas a outro país, onde a morte ainda atua normalmente.
Percebendo a confusão que se estabeleceu, a morte resolve voltar atrás, retomando suas atividades normais. Então, a morte envia uma carta ao diretor de uma emissora de televisão para que se anunciasse à toda a população o seu retorno. A carta é muito interessante:
"Estimado senhor, para os efeitos que as pessoas interessadas tiverem por convenientes venho informar de que a partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notórios, desde o princípio dos tempos e até ao dia trinta e um de dezembro do ano passado, devo explicar que a intenção que me levou a interromper a minha actividade, a parar de matar, a embainhar a emblemática gadanha que imaginativos pintores e gravadores doutro tempo me puseram na mão, foi oferecer a esses seres humanos que tanto me detestam uma pequena amostra do que para eles seria viver sempre, isto é, eternamente, embora, aqui entre nós dois, senhor director-geral da televisão nacional, eu tenha de confessar a minha total ignorância sobre se as duas palavras, sempre e eternamente, são tão sinónimas quanto em geral se crê, ora bem, passado este período de alguns meses a que poderíamos chamar de prova de resistência ou de tempo gratuito e tendo em conta os lamentáveis resultados da experiência, tanto de um ponto de vista moral, isto é, filosófico, como de um ponto de vista pragmático, isto é, social, considerei que o melhor para as famílias e para a sociedade no seu conjunto, quer em sentido vertical, quer em sentido horizontal, seria vir a público reconhecer o equivoco de que sou responsável e anunciar o imediato regresso à normalidade, o que significará que a todas aquelas pessoas que já deveriam estar mortas, mas que, com saúde ou sem ela, permaneceram neste mundo, se lhes apagará a candeia da vida quando se extinguir no ar a última badalada da meia-noite, note-se que a referência à badalada é meramente simbólica, não seja que a alguém lhe passe pela cabeça a ideia estúpida de encravar os relógios dos campanários ou de retirar o badalo aos sinos pensando que dessa maneira deteria o tempo e contrariaria o que é minha decisão irrevogável, esta de devolver o supremo medo ao coração dos homens.
(...)
A partir de agora toda a gente passará a ser prevenida por igual e terá um prazo de uma semana para pôr em ordem o que ainda lhe resta de vida, fazer testamento e dizer adeus à família, pedindo perdão pelo mal feito ou fazendo as pazes com o primo com quem desde há vinte anos estava de relações cortadas, dito isto, senhor directorgeral da televisão nacional, só me resta pedir-lhe que faça chegar hoje mesmo a todos os lares do país esta minha mensagem autógrafa, que assino com o nome com que geralmente se me conhece, morte." (José Saramago, As intermitências da morte, p. 96-97)
As pessoas passaram, então, a receber cartas da morte anunciando-lhes a "rescisão deste contrato temporário a que chamamos vida". Nem preciso dizer que a confusão apenas aumentou. Imagine você saber que falta uma semana para a visita da morte.
Não vou contar a história toda. Fica a dica para quem não leu o livro. O que queria dizer aqui, no dia da morte de Saramago, é que não lamento a sua morte. E não deixo de lamentar sua morte pelas razões que levam fundamentalistas religiosos cheios de raiva e rancor a não lamentarem a sua morte, por conta do ateísmo de Saramago. Não lamento sua morte porque a morte é uma parte da vida. Saramago viveu 87 anos e viveu uma vida significativa, não há o que lamentar. A hora chegou, e tinha que chegar. Chegará para todos nós. Afinal, como ele mesmo diz, "a prudência só serve para adiar o inevitável, mais cedo ou mais tarde acaba por se render" (p. 193). A obra dele fica, e apenas os familiares e amigos mais próximos podem lamentar legitimamente a sua partida, por causa da saudade.
Quanto ao que vem depois da morte, se há contas a acertar com Deus ou não, isso parece ser mais um assunto dos vivos que dos mortos. Aliás, tem um trecho do livro em que um filósofo cético está discutindo com representantes de algumas religiões sobre a questão da morte e passa a acusar as religiões de usarem a morte como instrumento de intimidação e medo. O representante católico nem chega a refutar. E chega a uma conclusão muito lúcida, segundo o que eu penso. Eis o trecho com esse diálogo, começando pela fala do filósofo:
(...) o único instrumento de lavoura de que deus parecia dispor na terra para lavrar os caminhos que deveriam conduzir ao seu reino, a conclusão óbvia e irrebatível é de que toda a história santa termina inevitavelmente num beco sem saída. Este ácido argumento saiu da boca do mais velho dos filósofos pessimistas, que não ficou por aqui e acrescentou acto contínuo, As religiões, todas elas, por mais voltas que lhes dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte, precisam dela como do pão para a boca. Os delegados das religiões não se deram ao incómodo de protestar. Pelo contrário, um deles, conceituado integrante do sector católico, disse, Tem razão, senhor filósofo, é para isso mesmo que nós existimos, para que as pessoas levem toda a vida com o medo pendurado ao pescoço e, chegada a sua hora, acolham a morte como uma libertação, O paraíso, Paraíso ou inferno, ou cousa nenhuma, o que se passe depois da morte importa-nos muito menos que o que geralmente se crê, a religião, senhor filósofo, é um assunto da terra, não tem nada que ver com o céu." (José Saramago, As intermitências da morte)
Tempo de Travessia
"Há um tempo em que é preciso
abandonar as roupas usadas
Que já tem a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que
nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre
À margem de nós mesmos\"
Fernando Pessoa
"Não há melhor maneira de exercitar a imaginação do que estudar direito. Nenhum poeta jamais interpretou a natureza com tanta liberdade quanto um jurista interpreta a verdade"
(Jean Giraudox)
"Conheci um químico que, quando no seu laboratório destilava venenos, acordava as noites em sobressalto, recordando com pavor que um miligrama daquela substância bastava para matar um homem. Como poderá dormir tranquilamente o juiz que sabe possuir, num alambique secreto, aquele tóxico subtil que se chama injustiça e do qual uma ligeira fuga pode bastar, não só para tirar a vida mas, o que é mais horrível, para dar a uma vida inteira indelével sabor amargo, que doçura alguma jamais poderá consolar?"
(Piero Calamandrei)
"O advogado não altera a verdade se consegue tirar dela aqueles elementos mais característicos, que escapam ao vulgo. Não é justo acusá-lo de trair a verdade quando, pelo contrário, consegue ser, como o artista, o seu intérprete sensível"
(Calamandrei, na obra "Eles, os juízes, vistos por nós, os advogados")
"O advogado deve sugerir por forma tão discreta os argumentos que lhe dão razão, que deixe ao juiz a convicção de que foi ele próprio quem os descobriu"
(Piero Calamandrei)
Passou em Brancas Nuvens e Não Viveu.
Como dizia o poeta
Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu
Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não
Não há mal pior do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão
Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não
Vinicius de Moraes


Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado . Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro. Mas cada um via uma coisa diferente, e cada um portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.
Fernando Pessoa (notas soltas)
Tivesse medo? O medo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam - o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu - o que quero e sobrequero -: é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim."

Soneto de Fidelidade
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinicius de Moraes
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Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.
Aprender é a única coisa de que a mente nunca se cansa, nunca tem medo e nunca se arrepende.
Só se pode chegar ao céu a Dois
Drewermann

O amor
Por Nínive Pignatari
Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feita pelo coração? Schopenhauer tentou e se deu mal. Na tentativa de decifrar tecnicamente o amor como um “produto residual do instinto de vida”, ou uma “ordem da seleção natural”, o filósofo, provavelmente, mal amado, perdeu muitos de seus adeptos.
Segundo sua teoria antipática, haveria uma razão biológica para o amor, reduzido em sua argumentação a uma astúcia da mãe natureza para refinar o plantel da raça humana. O que está em jogo é a permanência da espécie no planeta. O privilégio dos belos, na escolha amorosa, seria apenas a expressão ardilosa dos hormônios no afã de preservar a descendência das criaturas mais perfeitas. Assim sendo, uma pessoa se atrairia por outra de aparência exata (os lindos) por uma imposição química, orquestrada pelo instinto (vontade de vida). O ser mais forte, harmonioso e bem acabado teria uma probabilidade maior gerar crias belas, saudáveis e competitivas.
Talvez isso explique as juras de amor destinadas às mulheres de nádegas abundantes (as gostosas). A banha das ancas não tem fim... Os culotes, que os homens tanto apreciam, são uma “poupança” natural. Essa reserva, na adversidade da fome e dos invernos neandertais poderia nutrir bebês gordos, sem maiores complicações, assegurando a perpetuação dos genes do macho apaixonado...Já as magrelas...
O filósofo alemão quis, sem dúvida, desbancar Platão, o primeiro pensador a dissecar o tema amoroso. No “Banquete”, obra prima do filósofo grego, encontra-se o germe da mais remota e fantástica teoria sobre o amor.
Inicialmente, segundo consta, todas as criaturas eram duplas (dois em um). Oito membros, duas mentes unidas num só crânio, dois corações amarradinhos. Alguns eram compostos por dois machos, outros de duas fêmeas, (eram os homossexuais) e ainda havia os andróginos, metade homem, metade mulher, (deles descenderiam os heterossexuais).

Mas Zeus, ao final de um dia estressante, revoltado com a humanidade arrogante e belicosa, decide enfraquecê-los. Reparte as bolotas ao meio, como quem corta ovos com um fio de cabelo. Feito o corte, espalhou as duas metades pelo mundo, bem longe uma da outra! Cada qual uma meia senha, saudosa de seu naco amputado, vagando numa busca recíproca da integridade perdida. O mito emplacou, pois justifica o sofrimento “dos amantes separados”, tão bem conhecido dos mortais, sejam homo ou heterossexuais.
Assim teria caminhado a humanidade, nostálgica e incompleta. Essa demanda frustrada rumo à cara metade, cindida violentamente na gênese das almas, repercute em novelas, romances e poemas: teríamos uma cara metade?!
Note que teoria Platônica, embora ancestral, colou muito mais, num claro indício de que a humanidade é mesmo predisposta à irracionalidade. (Alma gêmea, carne unha, bate coração!). Pegou! Somos laranja. Metade da laranja.
Não há na literatura inteira um único poema inspirado na tradição schopenhaueriana sobre o amor! Ademais como explicar, pelo viés rabugento do filósofo alemão, o fato de haver quem ame loucamente os baixinhos, os carecas, as dentuças e as barrigudinhas?
A lógica, com sua perfeição asséptica, vive dos fatos, das evidências, da objetividade, mas não será também um fato evidente que em algum lugar do mundo, nesse exato momento, dois coração ardem em presença um do outro sonhando fundir seus corpos numa existência comum, recompondo a unidade perdida! Que lindo!
Então será a lógica inoperante face às determinações do amor?
Cupido é a expressão com assas do paradoxo desta ferida que "dói e não se sente". Mesmo insano, o amor paixão é sempre sublime, pelo menos na música, na poesia e no cinema.
É um sentimento atroz e glorioso que deve, sempre, terminar mal (Todo grande amor, só é bem grande se for triste!). Enfim, dói, mas é bom, igual bicho de pé. (Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão/ Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não!).
A retórica literária imputa à paixão febril uma superioridade extrema com relação ao amor chatinho dos casados felizes, retratado invariavelmente com adjetivos sem nenhum glamour, como “paciente”, “abnegado” e “perseverante”. Isso explica, em parte, a ascensão na curva dos divórcios.
Pois bem, o sujeito apaixonado, antes pleno em si mesmo, torna-se carente, insuficiente, suspirando como um doente terminal na ausência do outro (e está feliz!). Ainda que esse outro não seja exatamente o ser projetado! (O amor é um microscópio que amplia as formosuras). Por isso, há muitos que amam os confusos, os endividados e os levados da breca em geral... (Olha você tem todas as coisas que um dia eu sonhei pra mim, a cabeça cheia de problemas, não importa eu gosto mesmo assim!!!). Quanto mais problemático o sujeito, mais amor.
A maluquice começa quando o apaixonado invoca de fundir-se ao outro, (Não há você sem mim) atingindo, então a imortalidade (O amor é mais forte que a morte), ou a divindade (Quem ama está possuído por um Deus!).
Que coisa! Só quem ama compreende a osmose em sua plenitude significativa (Quero ficar no teu corpo feito tatuagem).
O apaixonado muda de gosto. Passa a valorizar trapos (Quando a gente ama, qualquer coisa serve para relembrar, um vestido velho da mulher amada tem muito valor!). E se apega a coisas nojentas (Aquele fio de cabelo comprido que já esteve grudado no nosso suor!). Que meleca!
O senso estatístico do amante é também intrigante. Para quem a ama o eleito é único num universo de 6 bilhões de mortais e jamais haverá um outro alguém (É você, só você!).
São ainda prejudicadas as noções de causa e feito, ("você não vale nada, mas eu gosto de você, tudo que eu queria era saber por que?") e as leis da física e da astronomia ("Nosso amor estava escrito nas estrelas, tava sim..."). Quem ama vira pagão e passa crer no destino como um grego velho diante do oráculo ("Você é meu caminho! Meu vinho! Meu vício. Desde o início, estava você!").
O amor desafia o senso comum. Cada um acha que ama diferente, numa singularidade milagrosa. Todo amor é ímpar, predestinado, apoteótico, indescritível. Um furor único de veias e lábios.
Admirável por sua virulência invasiva, o amor deixa o amante assustado (Ninguém pode fugir do amor) e corajoso ao mesmo tempo ("Por você eu limparia os trilhos do metro!"). Misericórdia!
O amor anima o sujeito a caminhar ("por você ... eu iria a pé do Rio a Salvador!") e a agachar ("Por que me arrasto a seus pés? Por que me dou tanto assim?"). Além dessa propensão aeróbica, o amor também leva a imobilidade ("Avião sem asa, sou eu assim sem você!").
E nessa pane (felizmente temporária) de consciência, o amante confunde tudo: o tato (pele macia é carne de caju), a visão ("Você é luz, é raio estrela e luar"), a audição ("Ri que eu ouço o pipilar dos passarinhos") e o olfato ("Hoje eu preciso te abraçar, sentir seu cheiro de roupa limpa") e o paladar, ("Saliva doce, doce mel, Mel de urucu ")
Com o coração em brotoejas, o sujeito torna-se xereta e passa a se interessar pelas banalidades mais entediantes da vida alheia ("Como vai você? Eu preciso saber da sua vida, peço a alguém pra me contar sobre o seu dia"). Que interessante!
Mas, para além de todos os enigmas neurológicos descritos acima, o que há de mais curioso no amor é o que ele suprime. O amor neutraliza o espírito comercial (que move o mundo desde os tempos imemoriais).
Quem ama (e apenas quem ama), deixa de ver o mundo com olhos negociais. Dilapida suas riquezas, dispensa honrarias e se coloca em risco penal ("E por você eu largo tudo, vou mendigar, roubar, matar"). Não se importa com a reputação, nem consulta os registros do estado civil ("Ele é casado, e eu sou a outra que o mundo difama!"). Nem com o ridículo pessoal a que se submete, afinal as cartas (e as falas) de amor, se há amor, têm de ser ridículas. Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas. Que ridículo, Pessoa, até tu???!
Em decorrência dessa humildade súbita, a voz do povo consagrou em “ideal de felicidade” a máxima (mais mínima) já proferida pela boca humana: "Meu amor e uma cabana"! Nada demais para uma humanidade masoquista que rima “amor com dor” desde o trovadorismo literário.
O amante autêntico é como o perfumista, só quer saber da essência! Ama o que outro “é”, na mais plena (e enigmática) acepção do verbo “ser”! Não considera o que outro tem, pode, oferece, sabe ou vale (Você não vale nada, mais eu gosto de você!. Tudo que eu queria era saber por quê????)
E nessa busca pelo “ser profundo” que ninguém mais vê, despreza-se a forma ("Quem foi que disse que tem que ser magra pra ser gostosa?") e os estragos do tempo ("Panela velha é que faz comida boa"). Não importa se a criatura é vesga, enrugada ou peluda, pois quem ama o feio bonito lhe parece.
E ao olhar do amante é dado ver mais do que está lá! Cupido devia distribuir lupas e não flechas.
“Amo porque amo”, não é uma tautologia boba. É a única explicação. O amor não faz escolhas, é uma passividade em que alguém se vê detento do próprio desejo. O amor não precisa de motivos. Aliás, só é infinito quando surge a partir de motivo nenhum, pois os motivos passam. Só quem ama por que ama pode amar para sempre.
Não se luta pelo amor, ele vem se quer. Não adianta adubar. Nem arrancar pela raiz como se faz com o mal. O amor não tem raiz. Ele paira como uma flor aquática nos confins do coração.
O amor não se mata. Mas se estiver morto (por vontade própria), também não pode ser reanimado.
Não se interroga o amor. Ou ele existe ou não existe. Pronto.
Quem ama nunca questiona se ama. Quem questiona se ama, não ama. Pois o amor, se existe, é evidente como uma espinha na ponta do nariz. Quem ama tem certeza absoluta.
O amor não precisa de um bom motivo. Quem ama, ama “apesar de” e não “porque”, pois amamos mais pelos defeitos do que pelas qualidades, pois amamos mais o amor do que o amante e mais ainda, amamos, no amor, a doce melancolia da impossibilidade, na segurança de que uma doce ilusão é sempre melhor que a presença real da criatura.
Afinal o amor verdadeiro deve ser inatingível e reciprocamente infeliz. Que o atestem os pares fatais Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Otelo e Desdêmona, e tantos outros mal parafraseados nas novelas mexicanas, nas ruas e nas páginas policiais.
Enfim quem toma a barca do amor paga caro, vai sem bússola e se afunda entre bolhas, sufocos e frenesis nos mares da idealidade.
Embora Schopenhauer tenha errado o argumento, acertou na tese. Há uma lógica em tudo isso, sim. A lógica do amor é a da sublime pretensão humana de igualar-se a Deus.
Perdidos na imensidão de nós mesmos, numa vida seca, sem heróis e sem sentidos mais altos, gostamos de amar, porque quando amamos cingimos a alegria máxima da criação. Moldamos, a partir do barro suposto no outro, um Adão nosso, todo inventado. E acariciando-o, o amante esculpe o corpo que quer ("para si") entre os dedos.
Isso talvez explique porque os apaixonados sussurram, nos momentos mais íntimos, apelidinhos fofos como thutchuca, mô e benhê, rebatizando, na pia da orelha (úmida de saliva), a recém parida criatura.
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Amar é ultrapassarmo-nos.
O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que tem medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno.
Difícil é amar uma mulher e simultaneamente fazer alguma coisa com juízo.
Amar é cansar-se de estar só: é uma covardia portanto, e uma traição a nós próprios (importa soberanamente que não amemos).
Fernando Pessoa

Ser amado é consumir-se na chama. Amar, é luzir com uma luz inesgotável. Ser amado é passar; amar é durar.
Pois tudo aquilo que é
realmente nosso, nunca se vai
para sempre...
O absurdo da vida.
O sentimento do absurdo da vida surge quando despertamos da nossa existência quotidiana e nos confrontamos com a ideia da morte inevitável.
Afinal, que sentido pode ter tudo isto se estamos condenados ao nada?
A existência torna-se autêntica perante a ideia de que o homem é um «ser-para-a-morte».
É nessa tensão que o sentido da existência pode surgir como projecto singular a empreender.
Sartre

Somos inteiramente livres, logo inteiramente responsáveis.
Livres e duplamente responsáveis, porque, se não há uma natureza humana, ao fazer-me estou a fazer o próprio homem: o que eu fizer torna-se (o) humano.
Mas sermos livres significa estarmos sós perante a indiferença do universo.
É este sentimento de solidão que está na origem do desamparo e da angústia.
«O inferno são os outros».
A minha liberdade inevitável confronta-se, todavia, com o olhar do outro.
Sartre
Liberdade de expressão é mandar o outro calar a boca. Liberdade de expressão é não calar a boca. (Pedro Bial)

Contribuição de Fernando Faccionoi 8ª A
NANDO REIS – Pra você guardei o amor
...Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir
Pra você guardei o amor
Que sempre quis mostrar
O amor que vive em mim vem visitar
Sorrir, vem colorir solar
Vem esquentar
E permitir
Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar
Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar
Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar
Pra você guardei o amor
Que aprendi vem dos meus pais
O amor que tive e recebi
E hoje posso dar livre e feliz
Céu cheiro e ar na cor que o arco-íris
Risca ao levitar
Vou nascer de novo
Lápis, edifício, tevere, ponte
Desenhar no seu quadril
Meus lábios beijam signos feito sinos
Trilho a infância, terço o berço
Do seu lar
Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar
Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar...

Contribuição de Fernando Faccionoi 8ª A
Jeitão de Caboclo – Valdemar Reis/Liu
Se eu pudesse voltar aos meus tempos de criança
Reviver a juventude com muita perseverança
Morar de novo no sítio na casa de alvenaria
Ver passarinhos cantando quando vem rompendo o dia
Eu voltaria a rever o pé de manjericão
A curruila morando lá no oco do mourão
Os bezerros no piquete e nossas vacas leiteiras
E papai tirando leite bem cedinho na mangueira
Eu voltaria a rever o ribeirão Taquari
Com suas águas bem claras onde pesquei lambari
O velho carro de boi, o monjolo e a moenda,
As vacas Maria-Preta,a Tirolesa e a Prenda
Na varanda tábua grande cheia de queijo curado
E mamãe assando pão no forno de lenha ao lado
Nossa reserva de mato, linda floresta fechada
As trilhas fundas do gado retalhando a invernada
Queria rever o sol com seus raios florescentes
Escondendo atrás da serra roubando o dia da gente
O pé de dama-da-noite junto ao mastro de São João
Que até hoje perfumam a minha imaginação
O caso é que eu não posso fazer o tempo voltar
Sou um cocão sem chumaço que já não pode cantar
Vou vivendo na cidade perdendo as forças aos poucos
Mas não consigo perder o meu jeitão de caboclo.
Contribuição de Fernando Faccionoi 8ª A
Encantos da Natureza: Luiz de Castro/Tião Carreiro
Tu que não tiveste a felicidade
Deixe a cidade e vem conhecer
Meu sertão querido, meu reino encantado
Meu berço adorado que me viu nascer
Venha mais de pressa, não fique pensando
Estou te esperando para te mostrar
Vou mostrar os lindos rios de águas claras
E as belezas raras do nosso luar.
Quando a lua nasce por detrás da mata
Fica cor de prata a imensidão
Então fico horas e horas olhando
A lua banhando lá no ribeirão
Muitos não se importam com este luar
Nem lembram de olhar o luar na serra
Mas estes não vivem, são seres humanos
Que estão vegetando em cima da terra.
Quando a lua esconde logo rompe a aurora
Vou dizer agora do amanhecer
Raios vermelhados riscam o horizonte
O sol lá no monte começa a nascer
Lá na mata canta toda a passarada
E lá na paiada pia o xororó
O rei do terreiro abre a garganta,
Bate a asa e canta en cima do paiol.
Quando o sol esquenta, cantam cigarras
Em grande algazarra na beira da estrada,
Lindas borboletas de variadas cores
Vem beijar as flores já desabrochadas,
Este pedacinho de chão encantado
Foi abençoado por nosso senhor,
Que nunca nos deixe faltar no sertão
Saúde, união, a paz e o amor.

Contribuição de Fernando Faccionoi 8ª A
Metade
Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.
Oswaldo Montenegro

Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência, não pensar...
O amor é quando a gente mora um no outro.

EMBRIAGAI-VOS
É necessário estar sempre bêbedo. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.
Mas -- de quê ? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão de vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
--- É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagais-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou virtude, como achardes melhor.
Baudelaire
Amar é ter um pássaro pousado no dedo.
Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que,
a qualquer momento, ele pode voar”
Que medo alegre, o de te esperar.

Em última análise, precisamos amar para não adoecer.
Quem só tem o espírito da história não compreendeu a lição da vida e tem sempre de retomá-la. É em ti mesmo que se coloca o enigma da existência: ninguém o pode resolver senão tu! (Nietzsche)
Sócrates:
_Qual é a utilidade do amor?
Diotima:
_ Só o amor produz a imortalidade.
(O Banquete)
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Contribuição de Augusto Martins
E gostar de meninos, padre, é desobedecer a vontade de Deus?
Só agora pude perceber que o Direito não comporta verdades absolutas. As ciências jurídicas, ao contrário das demais ciências, não trabalham no campo do necessário. Necessário tem “força” de obrigatório. Isso deveria ter o peso de um princípio, idêntico àqueles que encontramos na Constituição Federal.
Estudando isso, lembrei-me de um acontecimento de quando eu tinha doze anos de idade: a primeira confissão. Essa primeira fase da eucaristia nos dava a oportunidade de confessar e, com isso, nos livrava de uma vez por todas do que as catequistas chamavam de inferno. Até hoje eu fico imaginando: o que uma criança de doze anos teria pra confessar de tão grave que, com o perdão dos seus pecados, lhe garantiria um pedacinho do céu?
Lá fui eu conversar frente a frente com o padre. A única coisa que nos separava era uma parede de madeira e nada mais. Fiquei em silêncio por dois minutos. Parecia um daqueles consultórios de psicanálise, em que a conversa demora a acontecer.
“Eu não sei se tenho pecados. Aliás, eu nem sei o que é pecado! Por acaso é pecado faltar da escola? Desejar que a professora estivesse com dor de cabeça para não ir dar aula? Desejar que os pais morressem quando, num momento de briga, não estamos bem?”
Como todos os padres, ele me chamou com aquele vocativo perdoável: “Filho, pecado é alguma desobediência à vontade de Deus. Tudo o que for contra a vontade de Deus se transforma em pecado.”
Mais alguns segundos de silêncio e retomei a conversa: “E gostar de meninos, padre, é desobedecer a vontade de Deus?”
[...]
De verdade, nunca tentei descobrir o que se passou na cabeça daquele velhinho de mãos enrugadas de tanto distribuir bênçãos. “Filho, pecado é se sentir infeliz e desejar o mal aos outros. Vá até altar e reze dois ‘Pai-Nossos’ e duas ‘Ave-Marias’.” E assim eu fiz. Rezei até mais do que ele me sentenciou. E continuei gostando de meninos.
Assim como o Direito não trabalha com aquilo que é obrigatório, a religião também não. Assim como o Direito contém suas normas, a religião também possui. Ambas as normas podem ser descumpridas. No Direito, por exemplo, eu posso receber uma sanção penal. E na religião, qual pena é estabelecida? É a questão da infelicidade que o velhinho propagador de bênçãos me havia dito? Os “transgressores” homossexuais não herdarão o Reino de Deus?
Sinceramente, religião e Direito são criados pelas mãos do homem. Prova disso é o conflito entre uma religião e outra. O Deus (para quem acredita, e eu acredito) está acima de qualquer dessas normas, sendo elas jurídicas ou morais.
Eu, como integrante da sociedade LGBT e um futuro operador do Direito, desejo que nossos direitos possam ir além desse amparo jurídico. Quero lutar fora de campo, até porque não é só desse Direito que nossa sociedade precisa. Aliás, nem devo trazer a religião para o campo da ciência jurídica. Direito é Direito e religião é religião, como bem sublinhou o Iluminismo.
Se for verdade que haverá o tal julgamento, deixe que cada um de nós, converse “cara-a-cara” com o “Juiz Maior”. Deixe que encontremos argumentos que concederá nossa “absolvição”.
Creio que Deus tenha muito com que se preocupar que vai além de considerar o homossexual um pecador. O mesmo Deus que criou uma mulher que gosta de homem e vice-versa, também criou um homem que gosta de homem e uma mulher que gosta de mulher.
Ser homossexual não contraria a denominada lei moral. Ser homossexual não é ser anticristão, e muito menos enfraquece o Direito, pois o direito à identidade sexual é um algo personalíssimo. Ser homossexual também é divino, também é sagrado. Pecado é você não ler esse texto e continuar pisando na dignidade humana de seus semelhantes. O respeito é inerente ao homem e "o preconceito é o analfabetismo da alma."
Augusto Martins

A partir de certo ponto não há volta. Esse é o ponto que se deve atingir. Franz Kafka
Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar. Friedrich Nietzsche
As injúrias devem ser feitas todas de uma só vez, a fim de que, saboreando-as menos, ofendam menos: e os benefícios devem ser feitos pouco a pouco, a fim de que sejam mais bem saboreados. Frase de Maquiavel
A Realidade do Amor
Que sempre existam almas para as quais o amor seja também o contacto de duas poesias, a convergência de dois devaneios. O amor, enquanto amor, nunca termina de se exprimir e exprime-se tanto melhor quanto mais poeticamente é sonhado. Os devaneios de duas almas solitárias preparam a magia de amar. Um realista da paixão verá aí apenas fórmulas evanescentes. Mas não é menos verdade que as grandes paixões se preparam em grandes devaneios. Mutilamos a realidade do amor quando a separamos de toda a sua irrealidade.
Gaston Bachelard, in ' A Poética do Devaneio'
O Rigor e a Duração do Castigo
O rigor do castigo causa menos efeito sobre o espírito humano do que a duração da pena, porque a nossa sensibilidade é mais fácil e mais constantemente afectada por uma impressão ligeira, mas frequente, do que por um abalo violento, mas passageiro. Todo o ser sensível está submetido ao império do hábito; e, como é este que ensina o homem a falar, a andar, a satisfazer as suas necessidades, é também ele que grava no coração do homem as ideias de moral por impressões repetidas.
O espectáculo atroz, mas momentâneo, da morte de um criminoso, é para o crime um freio menos poderoso do que o longo e contínuo exemplo de um homem privado da sua liberdade, tornado até certo ponto uma besta de carga e que repara com trabalhos penosos o dano que causou à sociedade. Este retorno
frequente do espectador a si mesmo: «Se eu cometesse um crime, estaria a reduzir toda a minha vida a essa miserável condição», - essa ideia terrível assombraria mais fortemente os espíritos do que o medo da morte, que se vê apenas um instante numa obscura distância que lhe enfraquece o horror.
Cesare Beccaria, in 'Dos Delitos e Das Penas'
Frases de Baudelaire
"Manejar sabiamente uma língua é praticar uma espécie de feitiçaria evocatória."
"Não podendo suportar o amor, a Igreja quis ao menos desinfectá-lo, e então fez o casamento."
"A admiração começa onde acaba a compreensão."
"Aos olhos da saudade como o mundo é pequeno."Amar as mulheres inteligentes é um prazer de pederasta."
"Quem não souber povoar a sua solidão, também não conseguirá isolar-se entre a gente."
"O belo é sempre raro."
"Na declaração dos direitos do homem esqueceram-se de incluir o direito a contradizer-se."

A literatura é sempre uma expedição à verdade
Kafka
Qualquer ideia que te agrade,
Por isso mesmo... é tua.
O autor nada mais fez que vestir a verdade
Que dentro em ti se achava inteiramente nua...

_ Os antigos sabiamente pintaram o amor menino, porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge.
P. Antônio Vieira.
Enquanto existente, tenho um conjunto de possibilidades que me obrigam a escolher ¿ e, ao escolher, é a mim que me escolho.
Não está determinado de partida que vou ser isto ou aquilo: vou ser o que as minhas decisões me fizerem.
Isto exige do existencialismo uma defesa cerrada do livre-arbítrio.
«O homem está condenado a ser livre». Se a vida não tem um sentido determinado ¿ já que não há um deus que lhê dê isso¿, então nós não podemos evitar criar o sentido da nossa própria vida.
Por isso, estamos condenados à liberdade.
A vida obriga-nos a escolher entre vários possíveis.
Podemos criar jardins ou campos de morte.
Nada nos obriga, à partida, a escolher uma coisa ou outra.
Mas ser livre significa que somos nós, e só nós, os responsáveis pelas escolhas que fazemos.
Refugiarmo-nos numa suposta ordem divina mostra apenas a incapacidade para arcar com a responsabilidade das nossas próprias decisões.
Não há álibis. Mas a incapacidade de lidarmos com as consequências da nossa absoluta liberdade e da nossa responsabilidade absoluta está na origem da má-fé.
Sartre

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